O Dragão

Algo se passava, pensou um jovem rapaz enquanto deambulava pelas ruas da sua aldeia fantasma. Ouvia-se ao longe aquilo que parecia um grito suspenso que provinha da igreja. Ele nunca fora muito de rezas e mezinhas, aquilo deixava ele para a sua avó e mãe, demasiado absortas naquele culto a um símbolo que deixaram de distinguir entre o que é certo e o que é errado. Sempre lhe pareceu que não escutavam a fé interior que está dentro de nós mesmos passando a ser cordeiras de um pastor que só ouvia era o número de fiéis que tinha vindo a última missa e o número de donativos desses fiéis.

Debruçado nesses pensamentos acabou por a encontrar e nunca tinha visto ele nada igual…. 

A neblina promiscua que provinha da sua boca dava aso a sonhos escaldantes que faziam qualquer homem tremer.

Os seus olhos, negros como o céu mais tenebroso fixavam-se naquele objecto perdido no tempo que alguém deixara para trás.

A sua pele, pálida lunar aparentava ser quase mágica, impossível de alcançar. 

Ninguém sabia de onde aquela criatura aparecera, misteriosa e agíl. Surgira na vida dos sonhadores precavidos para os assombrar. Para os fazer recordar que tudo acontece e nada se controla, algo que ele já sabia há muito mas que os moradores da sua terra haviam-se esquecido. Enlouquecidos pelas moedas de ouro e vícios esqueceram-se que a lei corrupta e corrumpível não abrange o ser humano na sua totalidade, que a alma não se compra e que o coração não se força a entregar. 

Aquela criatura chegara para desordenar a ordem vigente, ou como alguém sábio que já tinha vivido muitas luas para pôr a ordem no caos ordenado que existia.

Ela existira muito antes desse sábio ser vivo, há milénios que permanecia no lago, esperando alguém a chamar. Enquanto isso, observava, horrorizada, os homens a destruírem tudo o que é belo e puro, arrastarem consigo maldições e pestes e instituírem aquilo que chamavam a palavra do Senhor. Mas alguém a chamou. Chegara a altura de voltar a restituir o equilíbrio delicado entre o Céu e a Terra, entre os elementos e as forças imersas no esquecimento…

Nisto rapaz apazigou-se de todo o temor que havia sentido, ela estava lá, havia respondido aos seus pedidos inconsciente de rectidão. Ela olhou para ele e percebeu…Nem tudo estava perdido, os homens não destruíram a pureza, esconderam-na nos sonhos das suas crianças.

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